esperança, acrílico sobre tela, 2017
No tempo das multidões escondidas, dos galos anoitecidos, o estranho bate à porta , uma borboleta de violência abstrata bate no vidro, algo a ser lembrado a cheiro, a mãe embala o filho e há no invisível as linhas férreas do pensamento, a trovoada entreabrindo o céu de nome e apeadeiros. A primeira música é o choro natal calando os surdos, a mãe que embala o filho sabe do valor de não ter peso, do colo de um estado atento pelas aves do mundo. as multidões escondidas alastram-se a uma palpitação na pele. O poder dos índios que não se resignam ao silêncio, das sombras e dos dentes dos monstros de infância. Os armários ainda têm portas circulatórias e há esqueletos assustando as noites.


A mãe ainda embala o filho de bandeiras derrubadas sorrindo para a terra e coagulando o estado memorável ,como as meninas que ainda firmam as raízes pelo caminho para a escola na terra que o pai acompanha, e o biberão verte o leite para a plantação sazonal, pedaços de mármore decompõem-se na direção das linhas do rosto para uma habitação soalheira, ela repara no calor das histórias que ainda sopram vestígios e pegadas numa nota musical circular que ultrapassa mortos.

Rute Castro




Para o G.
a eletricidade é um meio de desequilíbrio, podemos perder a visibilidade das coisas,
há que ver as casas pelas veias.

Rute Castro








...a sombra dita a luz
não ilumina  realmente  os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e  na boca.


Mário Cesariny
Um amigo meu, dizia:
-”O meu nome não é importante:
só serve para me chamares!”
E desatava a rir:
e no seu riso havia
o nome oculto que ele sabia
sem saber pronunciar.”



António Barahona
*
as portas por onde passámos são portas que rangem a solidão, que seja em companhia.
*
houve minutos em que nos silenciámos como gabinetes médicos depois de uma intervenção que corre mal,
saímos e o mapa apontava direções de saudade, um luto apertado frio, rios com as quedas iniciadas no nosso sufoco.
*
o algarve tem ar de deserto, tu que aqui vives sabes que respirar abafa com línguas de babel em fúria.
*
era assim que se abandonava a inocência da figura à janela, paisagens para dentro de casa, irrespiráveis .
*
oh, mas a nossa ecografia sempre foi inatingível, como um corredor que nos digere inconscientes,
febris pelo mundo, onde veios secundários são imprescindíveis à dinâmica da dor de cabeça.
*
a minha quinta tinha dez metros e dias enterrados perto de uma árvore.


                                                                                     Para o Bruno.


Rute Castro
o julgamento é a vida arejada por toda a toxicidade
e a bagagem interior espera o dia nesta localidade
no segundo arranjado para a refeição.
tenho em mim apenas o brusco que dá para o binóculo enegrecido,
que me lê uma história em que refino o escorpião e me mergulho sem saber nadar,
a minha história não tem fim,
também não tem início,
tem horas de segurar as aves no choro, engoli-las por dentro,
um antes e depois muito rápido até não se distinguir o corte dos anos,
terrível a espécie das coisa sem nome.
os seios alimentam a grande vista 
com a solidão de todos em transfusão.
tenho o estrondo do acordar das alvoradas,
e vocês explicam-me, querem explicar-me,
sacudo o mar, terra, barcos
e há a vontade de abraçar
quem arranha as paredes brancas dos dias,
de procurar para sempre a ventoinha na pedra das coisas,
qualquer passeio que déssemos sem pontes caídas
sem respirar de saco por dentro
com a exaustão de cavalo usado até à última queda.
as pedras não respiram
mas eu de isqueiros prontos e fósforos
prometi o lume da lembrança
ambulâncias
socos no peito da vida,
acordar uma lágrima, apenas uma lágrima
que me fizesse entrar em casa à força.


Rute Castro